13 de abril de 2011

Uma viagem no tempo


Alunos do Agrupamento de Escolas de Torre de Moncorvo viajaram até 1357 e trouxeram ao simbólico castelo da vila uma feira de antigamente.


Banquete Real
(Sara Carvalho)

Na passada sexta feira as ruas da vila transmontana encheram-se de espírito medieval. Vestidos a rigor, os alunos das escolas de Torre de Moncorvo acompanhados pelos seus professores e educadores, desfilaram até ao antigo castelo para recriar um cenário medieval.
A ideia partiu do departamento de português do Agrupamento de Escolas e insere-se na atribuição da Carta Foral por D. Dinis em 1357. José Brás, Coordenador de Projetos do Agrupamento explicou que "todos os esforços foram feitos no sentido de levar a cabo a feira medieval, mas depressa percebemos que ultrapassava os limites do Agrupamento e que era fundamental contar também com a participação de toda a comunidade".
A atividade contou com "uma soma considerável" de apoios e participantes de onde João Brás destaca o importante papel de todos os encarregados de educação que se "mostraram incansáveis" e que "moveram todos os esforços para a realização da feira".  

Ao final do dia "houve barraquinhas que esgotaram os seus produtos" e " pessoas que perguntavam quando voltava a repetir-se". A feira contou com quase dois mil visitantes, que entre os queijos, os animais, as sandes de porco e a sopa de pedra viram neste dia, um dia diferente.
A noite contou com um banquete e com a solene presença do Rei D. Dinis e sua esposa. Por apenas 10 euros foi possível fazer parte dos convidados do rei.

Danças mediavais
(Sara Carvalho)

"Uma noite estrelada em todos os sentidos", foi assim que José Brás a descreveu. Com um grande banquete e música a rigor a noite foi passando e ficou a promessa " de mover todos os esforços para tentar tornar a feira medieval um ícone em Torre de Moncorvo", garantiu.
A Feira Medieval realizou-se em parceria com a Câmara Municipal de Torre de Moncorvo e algumas empresas e entidades.

Sara Carvalho

5 de abril de 2011

Póvoa de Além Sabor

Desta vez a foto reportagem foi o género jornalístico escolhido. "Uma imagem vale mais do que mil palavras", aproveitem!

Espero que gostem :)



29 de março de 2011

Dilma Rosseff diz que Brasil pode ajudar Portugal

 "Brasil poderá ajudar Portugal como Portugal ajudou o Brasil economicamente ", afirma a Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, que esteve hoje em Coimbra.

Dilma Rousseff (Foto de Ueslei Marcelino/Reuters)
A Presidente do Brasil, Dilma Rousseff , disse hoje à chegada ao hotel Quinta das Lágrimas, em Coimbra, que o Brasil poderá ajudar a economia portuguesa.
Questionada pelos jornalistas acerca da crise económica portuguesa, Dilma Rousseff respondeu: "O Brasil poderá ajudar Portugal como Portugal ajudou o Brasil economicamente”.
A Presidente do Brasil chegou esta tarde a Portugal para a primeira visita oficial a um país europeu desde que tomou posse em Janeiro. Na sua deslocação, que termina na próxima quinta-feira, Dilma Rousseff tem na agenda encontros com os chefes de Estado e de Governo portugueses e ainda a participação na cerimónia de doutoramento honoris causa do seu antecessor Lula da Silva, na Universidade de Coimbra.
Um dos primeiros pontos da agenda de Dilma Rousseff está marcado para esta tarde, quando visitar a Universidade de Coimbra (UC) um dia antes de assistir ao doutoramento de Lula da Silva.
A Presidente brasileira irá ter almoçar em Coimbra e depois irá fazer “uma visita privada” àquela universidade, como adiantou à Lusa uma fonte da assessoria de imprensa do Ministério das Relações Exteriores do Brasil. A visita à UC acontece “a convite do reitor”, João Gabriel Silva. Além do reitor, durante a visita, Dilma Rousseff irá ser acompanhada pela vice-reitora da UC para as Relações Institucionais, Helena Freitas.
Às 10h30 de amanhã, Lula da Silva será então distinguido, na Sala Grande dos Actos, também conhecida por Sala dos Capelos, após formação do tradicional cortejo académico a partir da Biblioteca Joanina. Além de Dilma Rousseff, estará ainda presente na cerimónia o Presidente da República, Cavaco Silva, e seu homólogo de Cabo Verde, Pedro Pires.
Na quinta-feira, último dia da visita oficial, a chefe de Estado brasileira é recebida de manhã no Palácio de Belém para uma reunião de trabalho com o homólogo, Cavaco Silva. Depois, Dilma Rousseff irá à Assembleia da República para um encontro com Jaime Gama. Segue-se uma deslocação até ao Palácio de São Bento, para um encontro com o ainda primeiro-ministro, José Sócrates. A agenda da Presidente brasileira termina com um almoço oferecido por Cavaco Silva em honra da sua homóloga.

Dê-nos a sua opinião.

(Esta notícia foi um exercício da aula de Laboratório de Jornalismo I. Estas informações foram retiradas dos jornais Público e Expresso)








23 de março de 2011

Luso Jornal

Convido todos a assistir ao grande Luso Jornal! :)
Este foi um trabalho de grupo realizado no 1º semestre e tinha como objetivo fazer um retrato dos anos 80 em portugal.
LusoJornal foi um projeto que levamos a cabo, trata-se de um jornal tipo "Regiões", onde neste caso específico estamos a falar de Vila Real.
Jornalistas e Imagens a cargo de Sara Carvalho, Milene Fernandes, Daniela Pereira e Daniela Morais.
Agradecimentos aos três atletas.
Espero que gostem :)










22 de março de 2011

A TRADIÇÃO DOS CHOCALHOS


 (direitos reservados)

É lá no alto que tudo acontece. A magia invade as ruas e com ela os caretos que com as suas vestes e nariz pontiagudo tornam este carnaval, tão tipicamente transmontano, num ponto de visita obrigatória para todos os amantes de grandes tradições carnavalescas.

ENTRUDO CHOCALHEIRO

Gaiteiros (Foto:Sara Carvalho)

Por mais um ano se repetiu a tradição do entrudo. De Macedo de Cavaleiros a Podence, as festividades contaram com a visita de milhares de pessoas e com a participação de muitos curiosos e fãs desta tradição.
Este ano faziam parte do cartaz a inauguração de uma exposição fotográfica alusiva ao tema dos caretos e o lançamento do livro de Pedro Rapaso intitulado “Por de trás da máscara”.
A música foi garantida pelos Gaiteiros e pelos Pauliteiros de Mirando do Douro que completaram a festa dos Caretos de Podence.


OS CARETOS DE PODENCE
Caretos de Podence (Foto:Sara Carvalho)
Antiga celebração em honra de Saturno para acalmar a ira dos céus e pedir uma boa colheita é a grande origem desta tradição. Ainda hoje Podence vive do campo, e muitos têm sido os esforços para manter viva esta tradição.
Nos dias de hoje são quatro os dias de folia, de desordem, de animação e de chocalhos... muitos chocalhos que enchem as ruas da aldeia transmontana de Podence.
Ano após ano, o silêncio de cada inverno dá lugar aos frenéticos chocalhos dos misteriosos caretos vestidos com franjas coloridas e mantas de lã. A origem destas figuras perde-se no tempo. Figuras diabólicas e tão misteriosas com um único objetivo: chocalhar as moças solteiras!
Caretos à solta (Foto: Sara Carvalho)
A figura dos caretos caracteriza uma “tradição de origem pagã” transmitida de geração em geração. “Onde houver um rabo de saia o careto está lá para a chocalhar” diz António Carneiro, Presidente do Grupo de Caretos de Podence.
Facanito (Foto: Sara Carvalho)
O ritual dos chocalhos é “acima de tudo um ritual de passagem para um tempo de abstinência” depois de quatro dias de grandes excessos.
João Alves é careto,  maroto e atrevido, chocalha “ as solteiras e as casadas”. Mas outros há, que ainda novos, não querem ver perdida a tradição ancestral do chocalho e porque é “ de pequenino que se torce o pepino”, no meio dos caretos mais astutos há pequenos exemplos de “mini-caretos” atrevidos e tão carinhosamente apelidados de Facanitos.
Fatos idênticos mas mais pequenos, com máscaras de nariz pontiagudo, imitam os mais velhos e chegam já a escolher as moças para chocalhar.
O chocalhar é a dança atrevida dos caretos. Os chocalhos o intrumento que marca o compasso dessa dança tão carnal entre o careto e a mulher.
Quem visita vem de todo o lado. Milhares de pessoas passam por Podence, e enchem as ruas de uma aldeia com cerca de 400 habitantes.
Visitantes (Foto: Sara Carvalho)

Gritos e gargalhadas confudem-se no som dos chocalhos e todos se divertem, como foi o caso da D. Filomena que se assumiu uma “amante deste carnaval tão divertido e diferente daquilo a que estamos habituados”.
As gaitas de foles também foram rainhas ao longo de todos os festejos. Tão tipicamente transmontanas, este instrumento “não podia faltar” como vincou João Ventura, membro do grupo musical Roncos do Diabo.


PREGÃO CASAMENTEIRO
Também os casais têm um papel importante neste carnaval tão tradicional.
Chegados de burro ao largo da igreja e acompanhados das belas gaitas de foles os futuros noivos tão maldosamente arquitetados são os solteiros da igreja. O que há muito era um ritual único, hoje vê no seu todo um teatro improvisado para mostrar o que de melhor se fazia por estas bandas no tempo dos nossos avós.
Os anunciantes são os sacerdotes, com embudes (grandes funis) elevam a voz no adro da igreja, ao mesmo tempo distorcida para que ninguém os reconheça. È um momento de magia, de misticismo, de grandes gargalhadas... Claro está que estes casais anunciados nunca chegam a formar-se, mas em causa está a “boa saúde social” explica António Carneiro.
“São momentos de escape em que pode dizer-se tudo publicamente sem qualquer problema e sem que os solteiros possam levar a mal” explicou.

Pregão Casamenteiro (Fonte: Site Oficial do Grupo de Caretos de Podence)
"- Palhas, alhas leva-as o vento!- Oh, oh, oh...
- Aqui se vai formar e ordenar um casamento.
- Oh, oh, oh...
- E quem é que nós havemos de casar?
- Tu o dirás.
- Há-de ser a Maria rita que mora no bairro do Castelo.
- Oh, oh, oh...
- E quem é que nós havemos de dar para marido?
- Tu o dirás.
- Há-de ser o João da Rua que mora lá em baixo no Porto.
- Oh, oh, oh...
- E que nós havemos de dar de dote a ela?
- Tu o dirás.
- Há-de ser uma máquina de costura, porque ela é uma boa costureira.
- E que é que nós havemos de dar de dote a ele?
- Tu o dirás.
- Há-de ser uma terra ao Souto, para que não saia um de cima do outro enquanto for Inverno."

CASA DO CARETO
Casa do Careto (Foto:Sara Carvalho)
Aberta diarimente esta espécie de museu alberga a tradição do entrudo chocalheiro. A sua criação vem no sentido de perpetuar a lembrança do careto. Com cerca de sete anos de existência, este espaço polivalente albergou a exposição de fotografia que ainda decorre e pode ser visitada diarimente.
A tasquinha de produtos regionais inserida nesta Casa do Careto oferece a iguarias que a D. Filomena apelida de “delicías únicas”, a visitante afirmou ainda que “ é bom vir aqui não só pelos caretos mas também por todas estas coisas boas que se podem comer, e também beber”.
“A Casa do Careto tem uma parceria com a Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros, o que permite incluir nesta casa um vasto leque de eventos que se enquadram no Roteiro Turístico do Nordeste Transmontano” como explicou António Carneiro.

O GRUPO DE CARETOS SEM FRONTEIRAS
A tradição já há muito deixou de ser apenas uma tradição, atualmente o espetáculo atrai televisões e fotógrafos que querem perpetuar este acontecimento. Felizmente ou infelizmente, dependendo da opinião de cada uma, Podence procura o mediatismo e está a conseguir.
Os Caretos são já famosos além fronteiras e já marcaram presença por exemplo no Carnaval de Nice, França e no Carnaval de Viareggio, Itália. Incluem também uma dupla visita à Disneyland Paris.
Fundado em 1985 os cerca de 20 elementos deste grupo transmontano não deixam niguém indiferente.

A FESTA DE PODENCE
Todos os anos esta grande festa convida a visita de centenas de pessoas vindas de toda a parte. Os mais aventureiros dão-se aos chocalhos, os mais medrosos fogem deles, mas todos encontram nesta tradição a história de um povo.
Este ano a festa foi bem regada de boa disposição e o balanço “foi claramente positivo tendo em conta toda a gente que nos visitou” disse António Carneiro. Uma tradição que segundo a D. Maria “nasceu em Podence e vai continuar, espero eu”...


Pauliteiros de Miranda (Foto Sara Carvalho)
 
Caretos (Foto: Sara Carvalho)



Caretos e Casa do Careto
(Foto: Sara Carvalho)






28 de fevereiro de 2011

Otimismo sempre!

Crónica
Por: Sara Carvalho

Aprendi a fazer requeijões, aquele soro a coalhar no cimo da panela com aquele aroma característico de um bebé que acabou de bolsar, fez-me pensar que não é só quando o bebé bolsa que cheira mal... Há muita coisa que deita cheiro!
Hoje fiz oitenta quilómetros. Há um mês atrás custavam-me pouco mais de 10 euros, agora esses mesmos 10 euros não chegam. Se tentar fazê-los com 10 euros, o mais certo será ficar pelo caminho.
É uma látisma o caos em que se tornou o nosso país. Um pessimista dirá que daqui a alguns anos não haverá lucro para as concessionárias nem para as petrolíferas. Um otimista (dos bons) tentará ver pelo lado positivo e chegará à conclusão de que a obesidade em portugal poderá ter os dias contados, uma vez que mais gente irá optar pela bicicleta, esse exercício físico fará com que portugal se torne num país menos sendentário e até, quem sabe, suba uns bons degraus em muitas sondagens da União Europeia.
Mas não é bem da prática desse exercício que devemos louvar-nos. Portugal está a ficar um “expert” na ginástica dita de carteira, aquela que teima em ficar vazia cada vez mais depressa, depois encher uns sacos cada vez mais pequenos...
Enquanto almoçava ouvi na televisão que o Sr Ministro das Finanças defende que devem ser aplicadas mais medidas de austeridade. Mais? Mas diga-me lá Sr Ministro, essas medidas de austeridade são dirigidas a quem? A si não deve ser com toda a certeza, de outro modo ( e sempre tendo em conta o ponto de vista do otimista), já estaria em pele e osso.
Nós que ainda comemos carne e peixe, nós que ainda sabemos o que é um copo de leite quente pela manhã, nós que conhecemos o aconchego de uma boa cama e a frescura de um bom banho de imersão, não temos consciência que há cada vez mais gente como nós que de um dia para o outro deixa de o ser.
O aumento dos preços, medidas de austeridade atrás de medidas de austeridade, sempre em busca de um défice inalcansável... portugal está à beira do naufrágio!
Resta saber se todos estamos preparados para a grande prova de natação que se adivinha. Como diz um grande senhor “enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar, a gente vai continuar”. Vamos ver é por quanto tempo.


17 de fevereiro de 2011

“Não defendo um jornalismo de «buraco de fechadura» ”

Rita Marrafa de Carvalho - Jornalista RTP




Jornalista há mais de 15 anos e dona de um vasto currículo, Rita abriu o livro do seu percurso fascinante e invejável para muitos aspirantes ao mundo da comunicação
Por: Sara Carvalho



Jornalista, repórter, escritora, mãe, mulher... 
Rita é licenciada pela Universidade Nova de Lisboa em Ciências da Comunicação e neste momento está a meio do seu mestrado em Cultura Contemporânea e NovasTecnologias.
Rita é casada com José Carlos Ramalho, um experiente repórter de imagem, com quem tem uma filha. 
Ao longo da sua carreira vivenciou muitas experiências enriquecedoras e também "marcantes", como ela própria as caracteriza.

O jornalismo na sua vida

Como nasceu o sonho de ser jornalista?
Nunca foi um sonho nesse sentido restrito do termo... era uma meta de ofício, de prática. Sempre tive um interesse enorme por História e no 9º ano estava convencidíssima que iria seguir a variante Arqueologia. No entanto, com os testes psicotécnicos que existiam na altura, a psicóloga da escola teve uma longa conversa comigo... “Se fores para História vais morrer de tédio... necessitas de uma profissão na área comunicacional... Direito, Jornalismo ou Relações Públicas”... Confesso que fiquei estupefacta. Resolvi, com 14 anos, entrar no clube de Jornalismo da escola e para um circuito interno que tínhamos no liceu chamado RTE, Rádio Televisão Escolar. E descobri, assim, que aquilo tinha imensa graça e que preenchia as minhas necessidades criativas, sem qualquer dúvida. Escrever, ouvir, observar, conversar. Todos verbos que, ainda hoje, reinam no meu vocabulário. A partir daí, fiz rádio local com 17 anos, experimentei a imprensa escrita e acabei por entrar na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Nova de Lisboa, para fazer Ciências da Comunicação. Foi um percurso muito linear e coerente.

Há algum momento que tenha marcado a sua carreira?
Ao final de 15 anos, já tive muitos momentos marcantes e outros realmente embaraçosos... A ida para Banda Aceh, na Indonésia, para fazer a cobertura do tsunami no sudeste asiática, foi talvez a experiência mais enriquecedora e marcante. Nenhum de nós estava preparado para o que encontrámos. Naquele território, morreram mais de 150 mil pessoas... foi uma brutalidade. Mais de 80% de pessoal médico morreu. As crianças, na rua, não nos pediam comida ou dinheiro. Pediam máscaras por causa do mau-cheiro. Não havia nada. Foram 15 dias absolutamente inesquecíveis. 

E algum momento mais embaraçoso?
Já tive alguns. Recordo-me do primeiro dia em que saí em reportagem com um sénior, na RTP. Tinha acabado de sair da faculdade, com 22 anos, e cheia de formatações e regras e métodos... A Maria João Barros, duríssima comigo, mandou-me carregar o tripé e tratava-me por estagiária. Fomos fazer a reportagem sobre a inauguração do Chiado, após as obras de recuperação. A João passa-me o microfone e diz-me “Faz tu a entrevista!”. Eu tremia como varas verdes. Estava fartinha de saber quem era o arquitecto em causa, mas seguindo a regra do “identificação do entrevistado deve ficar gravada”, saiu-me um “diga-me o seu primeiro e último nome e função” da praxe. O senhor, condescendente, lá me respondeu “O primeiro é Álvaro... o último Vieira... e sou arquitecto”. Ainda hoje, eu e a João nos rimos disto. Não sei se o Siza Vieira guardará esta memória com o mesmo humor.
"Ser jornalista é algo que se vai edificando, moldando ao longo dos inputs recebidos e das experiências reunidas."
Sente que o seu trabalho é reconhecido?
Sinto, sim. Quer pela entidade patronal, claro está, como pelo público. Sinto-me afortunada pela possibilidade de acompanhar determinados eventos nacionais e internacionais, mas foi algo pelo qual trabalhei muito. Ninguém começa na área por acompanhar o processo Freeport ou a viajar para a África do Sul, para a cobertura social do Mundial de futebol. É um trabalho de anos. De crescimento, aprendizagem e que passa pela construção de credibilidade e seriedade.  

Ser repórter obrigou-a a abdicar de alguma coisa importante na sua vida?
Abdico, tristemente, de tempo com a minha filha. Estar ausente um mês, para a cobertura do Mundial na África do Sul, foi complicado. Já tinha estado duas semanas, várias vezes uma semana distante, como foi o caso do temporal da Madeira, mas nunca um mês. É algo que quero evitar ao máximo. Faz sentido numa determinada fase da nossa vida, mas quando eles ainda sentem muito a nossa ausência, é complicado. 

Samatra, Indonésia (2005) - Tsunami no sudoeste asiático

É difícil estar longe da família?
Ser casada com um jornalista alivia muitíssimo. Entende lindamente o que me "chama" para ir. É, inclusivamente, um jornalista mais experiente. O Zé Carlos, como repórter-de-imagem, já esteve em quase tudo o que foi conflito. Recordo-me da segunda vez que ele passou um mês no Iraque e foi duro. Quando eu estava na Indonésia, ele estava no Sri Lanka. Depois do nascimento da nossa filha, há 5 anos, evitamos sair para muito longe ou por períodos muito alargados de tempo.

A Rita escritora

Como descreveria a sua passagem pelo mundo da escrita?
É, talvez, onde me sinta melhor. E seria inevitável para mim. O jornalismo não deixa um espaço suficientemente grande para a criatividade, por razões mais do que óbvias. Mas oferece uma vivência de tal modo intensa, que me leva a ter essa necessidade. A ficção permite-me concretizar o que mais gosto de fazer: contar histórias. Com excepção do Esmeralda ou Ana Filipa, dois nomes, dois pais, que envolvia um levantamento arqueológico de todos os artigos escritos sobre o tema, entrevistas a todos os envolvidos e especialistas na área, todos os outros foram ficção. E assim me vou manter. Este ano, vai ser publicado um livro de contos escritos, uma vez mais, por mim e pelo Eduardo Águaboa. Chamar-se-á Folie à Deux e foi um desafio interessantíssimo que o Eduardo me fez. Perante 15 contos seus, coube-me escrever o outro lado da mesma história, outra versão dos mesmos factos. E vice-versa. Apresentei-lhe 15 contos e coube-lhe a mesma tarefa: o outro lado. O resultado é muito curioso.
"Escrever, ouvir, observar, conversar. Todos verbos que, ainda hoje, reinam no meu vocabulário"
Jornalismo e atualidade

Na sua opinião poder tornar públicos casos polémicos como Casa Pia, Joana, entre outros, fazem com que a profissão do jornalista tenha mais sentido?
A ideia do jornalismo não é o de se substituir à justiça ou órgãos de investigação. Não defendo um jornalismo de “buraco de fechadura”. Trazer a lume casos gritantes ou há muito encobertos, é um benéfico dano colateral mas não é o seu propósito central. Eu prefiro o da reposição da ordem. O do real esclarecimento dos factos. Com seriedade.
O que dá sentido ao jornalismo é o seu conceito fulcral: levar ao público a informação. Revelar-lhe outras realidades, outra visão dos factos.  

É importante fazer aquilo que se gosta. Se pudesse voltar atrás tinha escolhido uma carreira diferente?
Não, não tinha. Mas com o decorrer dos anos, e algum desencanto, vamos tendo vontade, se não necessidade, de fazer e experimentar outras coisas. Obviamente que não posso generalizar, mas sinto essa necessidade. Escrever. Escrever mais. Para outras plataformas culturais. Voltar a estudar, daí ter o mestrado a meio, com o processo curricular terminado mas pouco tempo para a tese.
A remuneração jornalística é outro problema grave. Poucos enriquecem... muitos sobrevivem. E o “império da imagem”, no que diz respeito ao jornalismo televisivo, é uma coisa desoladora. Um sistema que consome e, para o qual, é necessário estar muito bem preparado.   

É difícil ser jornalista na atualidade?
Em termos de conceito, já foi mais. Trabalhar em plena ditadura ou regimes pouco democráticos, deve ter sido uma coisa complicadíssima mas, simultaneamente, um desafio incrível. Hoje, as dificuldades prendem-se com o mercado de trabalho. Subitamente, tivemos um boom de faculdades, institutos, universidades privadas a oferecer cursos de jornalismo, comunicação social, ciências da comunicação... Ora, para muitos, o fascínio da mediatização levou-os a ingressar nestes cursos. O resultado é uma enchente de jovens licenciados sem um mercado suficiente para os empregar. Além disso, a própria precariedade atinge jornalistas séniores há muitos anos. Contratos temporários, recibos verdes... Não temos órgãos de Comunicação Social suficientes e, a muitos, resta-lhes profissões paralelas, como assessores de imprensa, relações públicas, accounts em agências de comunicação. É um cenário desolador para quem sai das universidades e se depara, subitamente, com este fim de linha nada idílico.

Que conselhos daria a todos os jovens que estão agora a entrar no mundo do jornalismo?
Conselhos serão sempre poucos e ingratos. Eu tentei absorver tudo o que os mais velhos, mesmo quando pouco acessíveis, se dispunham a partilhar. Humildade e coerência. Saber ouvir e ter noção que é na redacção, na rotina diária, que o tronco jornalístico se constrói, que as estratégias se estabelecem. Ser jornalista é algo que se vai edificando, moldando ao longo dos inputs recebidos e das experiências reunidas.